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Quando eles chegaram ali pela primeira vez, a terra ainda era selvagem. O solo estava no cio e logo eles começaram a plantar. Derrubavam árvores, aravam a terra, pastoreavam o gado. Logo os primeiros sinais da ocupação estavam sendo edificados: Casebres rústicos de madeira. Cinco, dez, vinte, trinta e cinco. Eram todos miseravelmente ocupados com o labor: A felicidade era se ocupar e não pensar na desgraça.

Já estavam cultivando o próprio sustento, longe da espada tirana do senhor daquelas terras, quando os primeiros pássaros vieram furtar o fruto do suor diário. Para espantar os covardes animais, ergueram uma figura humana feita dos farrapos das roupas dos próprios aldeões e de feno para o enchimento. Olhando para o vilarejo, no topo de uma pequena colina, lá estava ele, solitário.

Era manhã alta. O primeiro a ver foi um garoto que brincava com amigos em uma região mais afastada. Logo os adultos, suados pelo trabalho da plantação, viram aquela nuvem de poeira já um tanto próxima. Tentaram correr, tentaram se esconder, mas um grande grupo de assassinos montados em cavalos começou a incendiar e saquear o povoado. Dos que estavam ali, uma grande parte tentou fugir para o que restara do bosque original, quando a natureza era solitária. Correram atravessando a colina com todas a gana que um homem pode ter quando percebe sua vida sendo caçada como um animal selvagem, mas os cavalos eram mais velozes. O sangue jorrou e alimentou o centeio, tingindo-o de vermelho vivo. O cheiro do massacre era forte, tendo como testemunha o espantalho. Ele viu as casas arderem durante o entardecer, viu os estupros, os assassinatos, o saque.

Pela manhã só restavam cinzas e corpos. Rasgando o cinza, uma ave negra pousara em um dos cadáveres espalhados pelo campo, ignorando o espantalho. Uma bicada, duas, três. Devorava a carne humana com seu bico frenético. Quando ia bicar outra vez, foi agarrado por alguma coisa e teve seu gralhado abafado por uma mão macia e ruidosa. Ele acordara.

Do alto da colina, com um corvo morto em sua mão, o espantalho absorvera o sangue e a alma daqueles homens que tiveram suas vidas ceifadas pelos assassinos. O ódio e o amor o animara, e agora ele seria o guardião dos sobreviventes.

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