Skip navigation

A melodia suave e precisamente desestressante de um despertador preenchia um ambiente até então morto. Os olhos abriram preguiçosos mirando um teto ainda acinzentado que possuía uma lâmpada branca queimada, nua, sem nenhum adorno ou disfarce. Ele desligou rapidamente o aparelho que o acordara, mesmo sonolento, com uma precisão treinada. Após alguns segundos, o seu corpo masculino nu levantou-se da cama. Ainda era musculoso, embora seu auge já tivesse passado. A luz pálida que vinha de fora, atravessando uma grande janela de vidro, suja, do lado esquerdo da cama, denunciava mais um dia nublado, como todos desta última semana foram.

Vestiu um calção verde amarrotado enquanto sentia a fome de quem não havia jantado bem na noite anterior. Num banheiro extremamente masculino e desleixado, com pedaços de pasta de dente azulada endurecida espalhados e algumas roupas sujas jogadas embaixo da pia de aço, pressionara o interruptor brilhante da parede para iluminar o ambiente. Uma intensa luz branca acendeu-se acima de um espelho ovalado e no mesmo instante surgiu um rosto masculino sendo refletido. Era branco, embora não pálido, com cabelos escuros lisos querendo ultrapassar os olhos. Uma barba por fazer denunciava a razoável negligência de seu dono. Possuía algumas rugas, especialmente pés-de-galinha. Seguindo estas marcas, chegava-se em um olho semi-cerrado, de um azul profundo. Abriu a torneira da água quente com a mão enquanto fixava o olhar na escuridão da sua pupila, imerso em pensamentos.

Enrolado em uma toalha roxa e já banhado, estava agora deitado em sua desarrumada cama de casal, sozinho. A luz aumentara de intensidade nessa hora decorrida, e com isso a movimentação das pessoas daquela cidade também. Mesmo estando um apartamento nos subúrbios, sabia que se abrisse aquela janela de vidro, ouviria o som de antigos automóveis movidos à gasolina, bem como buzinas e sirenes.

Ainda nu, abandonara a toalha na cama, como havia feito com mulheres algumas vezes nesses últimos meses. Ele não se importava porque elas não se importavam, já que havia dado o que elas queriam antes. Fazia barulho, remexendo muitos talheres em uma gaveta de um móvel acomodado de forma eficiente numa pequena cozinha predominantemente branca. Encontrara o abridor de latas e logo sentia prazer ao destruir a embalagem da carne enlatada. Pegou um pão congelado, cortou-o e despejou aquela pasta vermelha com caroços brancos. Era sintética, ele sabia, e além de alimentá-lo naquele momento, provavelmente estaria alimentando também um futuro câncer. “Foda-se” pensou.

Vestiu um jeans cinza, já meio desbotado, com certa dificuldade. Depois, colocou uma camisa simples de algodão na cor vermelha, e finalmente um par do último modelo de tênis da Nike, desses que mostram o quão brutal é o capitalismo. “Não comprei mesmo.”,  pensou em silêncio. Ainda no quarto, olhou para uma pequena mesa de madeira escura que ficava próxima à frente da cama. Havia um cinzeiro de porcelana branca com várias munições de pequeno calibre espalhada. Sentiu preguiça, mas colocou uma a uma no pente da sua pistola .45 que estava em uma das gavetas destrancadas da mesa, com a simples chave de ferro cru já na fechadura. Antes de sair, tomou uma dose de uísque Red Label. Ele imaginava que, sendo tão barato, deveria ter sido contrabandeado e falsificado. Mas já não se importava mais.

Pegou a velha chave de seu carro, sua leve carteira, o celular desgastado, uma pistola ilegal e saiu. Era hora de lutar pela sobrevivência.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: